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quinta-feira, 4 de março de 2010

Portugal e o “fado” da Instabilidade



Portugal vive actualmente mergulhado num conjunto de problemas graves e que tardam a ser resolvidos. O desemprego continua a aumentar, a divida pública não pára de crescer, o produto interno cresce a um ritmo inferior à média comunitária, o maior partido da oposição continua dividido e com liderança enfraquecida, e o governo parece mais preocupado em maquilhar os dados do que em resolver os problemas.

O nosso país foi ainda arrastado pela crise económico-financeira mundial e continua vulnerável a potenciais novas recaídas dos mercados bolsistas.
É um cenário realmente preocupante e que devia levar à união de esforços para resolver os problemas através de soluções eficazes e sustentáveis. No entanto, não é exactamente isso que tem acontecido. O país contínua centrado em casos judiciais, fala-se no risco de eleições antecipadas e estamos em suspense com a nossa participação no Mundial de futebol…….sempre o futebol!
Portugal continua a não despertar para os verdadeiros problemas. Vive-se para a política e não para o país, discutem-se decisões judiciais, pondera-se combater a corrupção e brincamos às estatísticas. Mas não se apresentam soluções, não se discutem políticas, arranjam-se fait-divers para distrair a opinião pública.
Os principais culpados somos todos nós porque não participamos na política activa mas os políticos “profissionais” não estão seguramente isentos de culpa.
Portugal precisa de um novo paradigma de desenvolvimento, ou melhor, precisa de um verdadeiro modelo de desenvolvimento sustentável! Necessita de uma estratégia a médio prazo com objectivos concretos que potenciem as capacidades dos portugueses e do seu território. Não podemos continuar com a politica do litoral desenvolvido, abdicando do interior cada vez mais desertificado e esquecido. A política dos chavões, da demagogia e da amizade tem de dar lugar à competência, à responsabilização, ao mérito e à dedicação.

Para que ocorram estas alterações, o país tem de progredir, tem de abdicar do corporativismo instalado na sociedade, tem de modernizar a administração pública e diminuir o peso do Estado na sociedade, aumentando a competência nas suas principais tarefas como a Justiça, a Defesa e a gestão eficiente dos impostos dos contribuintes. E isso depende do Governo, dos Sindicatos, dos Partidos e das Associações, no fim de contas, depende de todos nós.
O cidadão comum, usualmente encolhe os ombros e prefere não dar opinião, não apresentar soluções, não exigir responsabilidades. Mas esta atitude tem de dar lugar a uma vivência social mais activa por parte de todos, seja em partidos políticos, nas empresas, em movimentos cívicos, na internet, e em ONGs.

Portugal necessita de uma liderança, precisa de um caminho e de uma esperança de futuro que catapulte a desmotivação generalizada para a ambição de sermos melhores e mais produtivos. Se todos querem ganhar no futebol (onde só jogam 11 portugueses), porque é que essa ambição ainda não transbordou para a vida de cada um de nós? Ser ambicioso representa um verdadeiro desígnio nacional que o Estado tem de apoiar com responsabilização, com ética e com rigor.
Muitos dizem que isso nunca acontecerá. Mas todos os que dizem isso, não se poderão queixar do Portugal que têm. Portugal tem de progredir e isso depende de todos mas principalmente de cada um! Não, não podemos dizer apenas que amanhã será diferente.
A mudança de paradigma tem de começar quanto antes, ou seja, hoje!

Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 03/03/2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Economia e Ambiente: bens substitutos ou bens complementares?



O ambiente e a economia são muitas vezes referenciados como dois bens substitutos. A ser verdade, isso significaria que não existe uma relação recíproca de complementaridade entre estes dois bens. Simplificando, a sociedade teria de escolher entre ter uma boa economia e um mau ambiente ou um bom ambiente e uma má economia. Mas será que o único mecanismo que gera riqueza obriga a que se abuse dos recursos naturais?

Os recursos naturais são obviamente a base da economia e todos os produtos que dão origem às trocas comerciais são retirados directa ou indirectamente da natureza. Para termos economia necessitamos de recursos naturais e, se não tivermos recursos, não temos economia. No entanto, dizer que são dois bens substitutos talvez não seja correcto por dois motivos fundamentais:

1- Uma economia estável e dinâmica apoia-se no chamado desenvolvimento sustentável. Este conceito representa um crescimento da actividade económica que não compromete as gerações futuras. Por outras palavras, o desenvolvimento sustentável implica a melhoria do bem-estar-social, considerando os aspectos económicos e ambientais, actuais e futuros.

2- O ambiente pode ser analisado como oportunidade de negócio sem que o tenhamos de sacrificar. Hoje em dia existem inúmeras actividades que se apoiam no ambiente e que podem ser geradoras de receitas, postos de emprego e fontes de dinamismo social, como por exemplo as energias renováveis, a reciclagem, a agricultura e silvicultura biológica, o turismo, o artesanato, a culinária e muitas outras.

A lógica do crescimento económico rápido e sem qualquer preocupação com a sustentabilidade está completamente ultrapassada. A economia dos nossos dias é a economia do desenvolvimento sustentável e não do crescimento a qualquer custo. Mesmo os países e regiões onde as preocupações ambientais estão no limiar da indiferença, terão de rever o seu posicionamento estratégico a curto prazo por imposições legais, por exigências sociais ou mesmo por insustentabilidade ambiental.
Em regiões com potencial turístico associado a condições naturais de excepção, o ambiente deverá ter ainda mais relevância e o desenvolvimento sustentável não pode ser um conceito vago. Certamente terá de existir uma boa dose de criatividade para gerar uma economia dinâmica sem comprometer o ambiente. Mas de nada serviria hipotecar o ambiente se esse é um dos maiores recursos. Não só é possível gerar (ao mesmo tempo) desenvolvimento económico e qualidade ambiental, como é desejável que assim aconteça. Com as ferramentas técnicas adequadas (muitas delas fornecidas pela Economia do Ambiente) é hoje possível efectuar inúmeras análises e relacionar items tão diversos como a poluição, o desemprego, a qualidade de vida e o rendimento. Afinal de contas, a economia não é uma ciência isolada das restantes e os efeitos de alterações ambientais têm necessariamente repercussões ao nível económico e vice-versa.

Ambiente e Economia são bens complementares e, na gestão de ambos, devemos recordar o Chefe Seattle na sua resposta (sobre a intenção dos EUA adquirirem o território ocupado pelos indígenas) ao presidente dos EUA Franklin Pierce em 1854:
“(…) Tudo o que agride a terra, agride os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um dos seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo (...)”

Nuno Vaz da Silva,
in Jornal "Alto Alentejo", edição de 06/01/2010

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Nós (também) por cá, no Concelho de Marvão - Vale de Rodão





Os Municípios são entidades públicas que têm o dever de zelar pelo espaço público onde se inserem. Têm o dever de zelar pela cultura, pelos valores, pela economia e pelo desporto – no fundo têm o dever de se preocuparem com o bem-estar-social e tudo o que isso representa para os Munícipes que suportam financeiramente (através dos impostos e das taxas) os funcionários da autarquia.

Dito isto, como é que uma autarquia que é avisada há mais de um ano e meio para uma troca de nome numa localidade de um concelho continua a permitir que a troca não seja corrigida, apesar da sucessiva troca de correspondência e de alertas?
Será que é preciso levar o assunto à televisão para que seja reposta a verdade cultural do Vale de Ródão - Concelho de Marvão?

O que acontecerá quando a velhinha placa cair definitivamente ou desaparecer?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Deputados Eleitos por Portalegre, não se resignem!



No momento em que escrevo estas linhas, desconhece-se ainda quem serão os Deputados eleitos por Portalegre. Da mesma forma se desconhece quem ganhou as eleições e quem será o primeiro-ministro.


No entanto, apetece-me dizer: Deputados eleitos por Portalegre, não se resignem!



Não se resignem ao facto de serem apenas 2 representantes do Norte Alentejano na Assembleia da República


Não se resignem por haver cada vez menos população no Distrito!


Não se resignem à tendência politico-partidária de aposta no litoral em detrimento do interior!


Não se resignem por Portalegre ser a única capital de Distrito sem auto-estrada construida nem com o concurso público para construção já lançado!


Não se resignem por não haver ligação da A6 ao IP2 em Estremoz!


Não se resignem por haver cada vez menos empresas no Distrito de Portalegre!


Insurjam-se por não haver uma política central de discriminação positiva das regiões com maiores assimetrias!


Não se acomodem à lógica de votarem segundo as orientações do partido e não pelas ambições do Distrito!


Sejam criativos na forma de apresentação das políticas na Assembleia!


Ouçam os vossos concidadãos e lembrem-se que foram eles que vos elegeram!


Vivam a experiência de ser deputado como uma missão e não como um emprego!



Desejem que daqui a 4 anos, o Norte Alentejano esteja mais desenvolvido sustentavelmente!


Levem os problemas do nosso Distrito à Assembleia e dêem-nos a conhecer a todos os portugueses!


Apresentem soluções, projectos, estatísticas, imagens e casos de sucesso!


Mostrem que o Alentejo é mais do que Évora e Beja!



Em resumo, façam-nos ter orgulho de vós, independentemente das vossas cores partidárias. Não se esqueçam das vossas origens e de quem vos elegeu. O Distrito de Portalegre necessita da vossa acção diária. Necessitamos de mais pessoas, mais empresas, mais turismo e melhor qualidade de vida. Não queremos ter mais do que todos os restantes portugueses mas exigimos as mesmas condições, a mesma preocupação do Estado e dos seus representantes.


A vossa acção política não termina com a vossa eleição. Mas agora é que vai começar a vossa tarefa mais importante: Representar os Norte Alentejanos!


Por isso, e mais uma vez, Deputados eleitos por Portalegre, não se resignem!



Nuno Vaz da Silva in jornal "Alto Alentejo", 30-09-2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Como resolver (e não apenas disfarçar) o problema do desemprego?




Os números sobre o desemprego não param de aumentar. No primeiro trimestre de 2009 registou-se o maior número de desempregados dos últimos 23 anos, com 495.800 pessoas inscritas nos centros de emprego, das quais 27% representavam indivíduos qualificados.

O fenómeno do desemprego é um dos grandes problemas sociais. O desemprego afecta o bem-estar social do individuo e do seu agregado familiar. Famílias com pessoas desempregadas têm menos rendimentos disponíveis e, por consequência, uma menor qualidade de vida.
Para minimizar o problema social e como forma de auxílio à integração no mercado de trabalho, o Estado atribui um subsídio aos cidadãos desempregados. Este mecanismo de recurso e de compensação é suportado financeiramente pelos impostos cobrados aos contribuintes. Quantos mais desempregados houver, mais subsídios o Estado terá de pagar e menos disponibilidade de recursos haverá para outros gastos e investimentos públicos.
Muitas vezes o Estado procura resolver o problema do desemprego através da contratação pública. É certo que, dessa forma, o número de desempregados diminui mas a questão dos recursos mantém-se porque são os mesmos contribuintes que pagam os subsídios de desemprego que têm de pagar os ordenados desses trabalhadores contratados (ou empregados, porque as duas expressões nem sempre são sinónimos). Pior ainda, acabamos por ficar com um outro problema que é o excessivo e progressivo peso da Administração Pública na sociedade, o que implica a existência de cada vez maiores impostos ou maior divida pública (ambas as fontes de receita são insustentáveis no longo prazo).
Como esta forma de disfarçar a situação pode potenciar maiores complicações orçamentais, o Estado (e mesmo a sociedade civil) deveria optar por soluções estruturais. Uma sugestão seria o reforço de competências nas Universidades, nos Institutos Politécnicos e até nos Centros de Formação Profissional com o objectivo de fomentar o empreendedorismo dos seus alunos. Para isso, seria fundamental aumentar os protocolos de relacionamento das instituições de ensino com empresas e com a própria Administração Pública. Só a existência de redes de troca de competências pode contribuir para criar verdadeiros Industrial Districts que permitam a dinamização de uma determinada região. Uma outra solução seria a formação dos desempregados em áreas específicas como a criação de empresas, o microcrédito, o voluntariado ou mesmo o serviço público. Afinal de contas, a maior riqueza das regiões é o seu capital humano, pelo que é fundamental apostar na inovação, na criatividade e na irreverência de cada pessoa.
Não podemos continuar a resolver os problemas do presente com as soluções do passado, principalmente quando essas mesmas soluções contribuem para um maior atraso estrutural do país e das regiões! O desemprego é apenas um desses problemas mas talvez seja dos mais complicados de solucionar. Atacar os números sem resolver o fenómeno significa maquilhar a realidade, não com a redução do desemprego mas sim com a migração (a médio prazo) da população para regiões e países em desenvolvimento, e com melhores perspectivas de futuro.
Encobrir os problemas até pode traduzir-se na obtenção de mais votos no curto prazo mas será sempre sinónimo de mais atraso, menos desenvolvimento e maior afastamento das populações da vida política no longo prazo! Serão os votos mais importantes do que o desenvolvimento?

Artigo publicado na edição de 24/06/2009 do jornal "Alto Alentejo" by Nuno Vaz da Silva

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Discurso de António Barreto no âmbito das comemorações do 10 Junho de 2009

"Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Santarém, 10 de Junho de 2009

Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro-ministro,
Senhores Embaixadores,
Senhor Presidente da Câmara de Santarém,
Senhoras e Senhores,

Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também
pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da
Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem
tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os
Portugueses. Onde quer que vivam.
Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias
diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por
isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por
Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que
colchas às varandas, precisavam de cultura.
Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi
"exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar
imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes,
cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.
Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal
gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei,
nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos
a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um
poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se
julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não
virem armadilha ou manipulação.
Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o
passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para
renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à
tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências
contemporâneas.
Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E
simplicidade.
Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores
poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua
perenidade.
Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos
séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo
com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.
Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos
talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.
Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é
Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o
melhor.
Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito
insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes,
pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes
ou símbolos de uma superioridade obscena.
Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas
também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de
cuidar da democracia.
As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O
carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita
nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e
consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção
entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de
resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não
apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua
obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber
o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por
vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a
liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.
Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas
ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia
absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que
é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.
Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um
Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.
Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo.
Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.
Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo,
submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.
Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e
credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as
associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.
A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas
relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.
A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um
facto consumado.
A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o
Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É
certamente uma das realizações maiores.
Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de
mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.
A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem
para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de
mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a
próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um
pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima
abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das
instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado
por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de
Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem
tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo,
uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam
mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o
seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar
o passado com o futuro.
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo
tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de
sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os
portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do
que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com
discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com
mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus
melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas
responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira
preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para
quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de
esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se
o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de
honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a
crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia
sentirá os seus efeitos.
Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de
excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de
que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão
melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções
empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas
para o esforço de recuperação do país."

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quando acabará a crise?



É impossível olhar para qualquer jornal, revista ou outra fonte de informação sem nos depararmos com a crise económico-financeira que se tem abatido na sociedade mundial. São notícias de abrandamento da actividade económica, aumento do desemprego, fecho de empresas, instabilidade social…
Com este panorama é difícil compreender que alguns políticos tenham defendido há poucos meses que a crise já tinha passado e não iria sequer afectar Portugal. Mas isso é reflexo da (medíocre) qualidade das análises económicas efectuadas por diversos responsáveis políticos.
O maior problema decorrente da instabilidade económica é a quebra de confiança que se generalizou por toda a sociedade mundial. Houve quebra da confiança nas instituições financeiras, nas empresas, nas instituições públicas e nas próprias famílias. Este factor levou a que todos os agentes tivessem, e continuem a ter, maiores precauções nas suas mais diversas tomadas de posição. Os bancos têm critérios mais apertados na concessão de crédito, as empresas suspendem decisões de investimento e as famílias tentam optar pelas suas melhores opções de consumo, privilegiando bens essenciais e reduzindo os gastos.
Não é difícil compreender que, com este cenário, a crise seria inevitável.
Mas nesta altura, a pergunta que se impõe é: Quando acabará esta crise?
Infelizmente, ninguém pode garantir quando irá terminar este período. Dado que é um problema global, acabamos por sofrer as consequências do que acontece por esse mundo fora mas devemos preparar-nos para a retoma, venha ela quando vier.
Um país e uma região preparados para a retoma conseguirão obter vantagens competitivas face a outros países e territórios. Como os recursos locais e regionais são relativamente diminutos, é necessário que a sua utilização seja rigorosa e eficaz. Por exemplo, faz todo o sentido que se prescinda das obras e festas de cariz eleitoralista em benefício de investimentos sustentáveis e produtivos. Para além disso, cabe aos autarcas e aos deputados eleitos pelos distritos a importante missão de lutar pela canalização de fundos das finanças centrais para o desenvolvimento regional. E essa tarefa é bem mais importante do que a distribuição de propaganda eleitoralista ou do que a distribuição de cumprimentos aos eleitores que se verifica no período pré-eleições e que termina no dia seguinte à votação. Seria interessante perguntar a cada candidato que nos cumprimentar durante o período eleitoral, o que fez pelos problemas do distrito (para os que se recandidatam) ou o que irão fazer por esta região (para os que se candidatam pela primeira vez). Fica a sugestão porque só a exigência e o rigor podem servir de alicerces seguros para enfrentar a crise e preparar o futuro com responsabilidade, confiança e sustentabilidade.


Nuno Vaz da Silva in "Alto Alentejo" 22/04/2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Investimento, a solução para a crise?


Inúmeras intervenções públicas têm defendido o recurso ao investimento como forma de ultrapassar a crise económica que enfrentamos. Fala-se que devemos investir em obras públicas, nas empresas, que a economia tem de ser dinamizada e até já se ouviu dizer que o deficit devia deixar de ser preocupação essencial na gestão das contas públicas.
Sendo verdade que a Economia necessita de um choque exógeno e que o “Bom Investimento” pode ser a ferramenta de eleição, não é menos verdade que o “Mau Investimento” será seguramente a causa de maiores desigualdades internas e externas.
Mas qual a diferença entre estes dois conceitos?

Um Bom Investimento permite um retorno superior ao capital investido, gerando economias de escala. Já um Mau Investimento tem um impacto económico e/ou social negativo face ao capital inicial, produzindo deseconomias de escala. Adoptando uma outra linguagem, o Bom Investimento promove o lucro e o bem-estar-social, o Mau gera o inverso.
Antes de fazer uma opção de investimento, devemos ter a noção de que qualquer escolha tem um custo de oportunidade. A utilização de crédito ou de poupanças para um determinado fim, influencia as restantes opções de investimento, de consumo ou de poupança. A aplicação de recursos nos dias de hoje irá afectar também as decisões de investimento das gerações vindouras. Com Mau Investimento podemos estar a hipotecar a capacidade de desenvolvimento da economia no futuro. Não basta portanto gastar dinheiro para ultrapassar a crise económica. O investimento não é todo igual e muito menos é igual ao consumo.
Esperemos que as famílias, os empresários e os órgãos públicos (Governo, Autarquias, Institutos Públicos) saibam optar pelas políticas de Bom Investimento, sem comprometer o futuro. Não será fácil ultrapassar esta crise económica mas será mais difícil progredir se as opções de investimento forem desajustadas, incoerentes e ineficientes. O bem-estar-social depende dessas mesmas decisões!
Num ano com três actos eleitorais, em que se perspectiva muito despesismo com marketing e inaugurações por parte do Governo e das Autarquias, façamos votos que os decisores políticos se preocupem mais com o País do que com o número de votos que poderão alcançar. Afinal de contas, todos assim o defendem! Será que cumprem?

Nuno Vaz da Silva, artigo publicado em 11/02/2009 in "Alto Alentejo"

Era uma vez Portugal!

ERA UMA VEZ... 4 trabalhadores chamados Toda-a-Gente, Alguém, Qualquer-Um e Ninguém. Havia um trabalho importante para fazer e Toda-a-Gente tinha a certeza que Alguém o faria. Qualquer-Um podia fazê-lo, mas Ninguém o fez. Alguém se zangou porque era um trabalho para Toda-a-Gente. Toda-a-Gente pensou que Qualquer-Um podia tê-lo feito, mas Ninguém constatou que Toda-a-Gente não o faria. No fim, Toda-a-Gente culpou Alguém, quando Ninguém fez o que Qualquer-Um poderia ter feito.
Foi assim que apareceu o Deixa-Andar, um 5º funcionário para evitar todos estes problemas.
Autor: Anónimo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


” Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.


(…)


Eu sou aquele que se espanta da própria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma pátria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha pátria.Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria.


(…)


Vós, ó portugueses da minha geração, que, como eu, não tendes culpa nenhuma de serdes portugueses.

Insultai o perigo.

Atirai-vos prà glória da aventura.

Desejai o record.

Dispensai as pacíficas e coxas recompensas da longevidade.

Divinizai o Orgulho.

Rezai a Luxúria.

Fazei predominar os sentimentos fortes sobre os agradáveis.

Tende a arrogância dos sãos e dos completos.

Fazei a apologia da Força e da Inteligência.

Fazei despertar o cérebro espontaneamente genial da Raça Latina.

Tentai vós mesmos o Homem Definitivo.

Abandonai os políticos de todas as opiniões: o patriotismo condicional degenera e suja; o patriotismo desinteressado glorifica e lava.

Fazei a apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores.

Ajudai a morrer os vencidos.

Gritai nas razões das vossas existências que tendes direito a uma pátria civilizada.

Aproveitai sobretudo este momento único em que a guerra da Europa vos convida a entrardes prà Civilização.

O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.


Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades!


Lisboa, Dezembro de 1917.”

Almada Negreiros in “ULTIMATUM FUTURISTA- Às gerações portuguesas do século XX “

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sete razões para exigir auto-estrada em Portalegre



Ao olhar para o mapa das acessibilidades em Portugal continental, conseguimos ter uma das muitas explicações para os motivos do subdesenvolvimento de Portalegre e do Norte Alentejano. Não é fácil conformarmo-nos com o facto de Portalegre ser a única capital de Distrito que não é contemplada pela rede de auto-estradas mas assim acontece. (A construção da auto-estrada Sines – Beja vai ser iniciada até Junho de 2009 e no dia 24 de Novembro, o Senhor Primeiro Ministro anunciou a nova Auto-Estrada Vila Real – Bragança – únicas capitais de Distrito que ainda estavam na mesma situação de Portalegre). Muitos dirão que é sinónimo da reduzida preocupação que o Governo Central tem com esta zona do país, outros argumentarão que os governantes e os representantes da população local e regional não têm conseguido reivindicar este importante activo.
Dado que não pretendo, nesta ocasião, identificar os culpados, proponho-me apresentar sete motivos para que Portalegre tenha uma auto-estrada:
Igualdade: Não faz sentido que os cidadãos de Portalegre e os visitantes desta região não possam usufruir das mesmas acessibilidades que utilizam quando se deslocam a outras zonas do país. Num contexto em que temos duas ou mais auto-estradas a servir uma localidade (ex: Leiria), é inacreditável que continuemos aqui sem uma única via deste género.
Segurança: Viajar num Itinerário Principal (como o IP2) é bastante mais perigoso do que viajar numa via com quatro faixas e um separador central. Embora a velocidade permitida seja também inferior, num IP os riscos associados a um eventual acidente são potencialmente maiores.
Desenvolvimento: Se um empresário tivesse de escolher entre Castelo Branco, Portalegre, Évora ou mesmo Elvas, qual a cidade que escolhia? A resposta a uma pergunta destas exige a análise de um conjunto de factores, entre os quais as acessibilidades e a facilidade de ligação às plataformas logísticas. Numa cidade sem auto-estrada, o escoamento dos produtos é mais difícil e mais demorado. Assim, num dos aspectos, Portalegre já está em desvantagem competitiva.
Para além disso, hoje em dia é mais rápido fazer a viagem Lisboa – Porto ou Lisboa – Algarve do que Lisboa – Portalegre, o que é um mau sinal acerca do desenvolvimento integrado que se deseja para todo o território.
Turismo: O Norte Alentejano é uma região com forte potencial turístico. No entanto, para que o turismo se desenvolva, é preciso fazer com que os visitantes cheguem rapidamente aos locais de interesse, através de transportes públicos frequentes (o que actualmente não acontece) e/ou boas redes de comunicação. Em Portalegre, para além da inexistência de auto-estrada, a rede ferroviária é também de menor qualidade face a outras regiões do país, o que contribui para a reduzida captação de turistas face às características da zona.
Estratégia: Portalegre está na rota geográfica mais rápida para se chegar de Lisboa a Cáceres e desta a Madrid. Se visualizarmos um mapa da Península Ibérica e se traçarmos uma linha recta entre estas três cidades, veremos que Évora, Castelo Branco ou mesmo Elvas ficam bem mais distantes dessa linha do que Portalegre.
Economia: Hoje em dia, as redes de comunicação são essenciais para a existência de mercados económicos activos e com capacidade para gerar riqueza. Isso implica que haja tecido empresarial instalado com indústria, comércio e agricultura adaptada às novas tecnologias. Numa cidade que se encontra em desvantagem comparativa, o dinamismo económico no âmbito de uma sociedade em globalização tende a diminuir.
Política: A principal função dos políticos é corresponder às aspirações dos seus co-cidadãos. A auto-estrada não representa apenas uma aspiração mas também e principalmente uma necessidade em prol da sustentabilidade desta região, da capital de distrito e, desta forma, da sustentabilidade dos próprios cargos político-administrativos regionais e locais.

Muitos outros argumentos se poderiam utilizar (alguns também contrários à instalação de uma rede viária desta natureza). Mas importa reunir todos eles e efectuar uma análise custo-benefício. Se, neste momento, Portalegre é a única capital de Distrito sem auto-estrada, será, um dia, a última a ter tido este activo. Desse estigma já não nos livramos, com inevitáveis prejuízos estruturais.
Publicado em 14/01/2009 in "Alto Alentejo"

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Vencer a Crise – uma possibilidade ao alcance de todos.



A crise financeira que tem afectado os mercados mundiais começa agora a transformar-se num verdadeiro problema global. A falta de liquidez das Instituições Financeiras e a incerteza quanto aos potenciais efeitos transversais têm provocado uma diminuição dos índices de confiança dos agentes económicos. Os bancos são mais cautelosos na concessão de crédito, os empresários e as famílias investem menos, aumenta o desemprego e diminui o consumo.
O inevitável abrandamento da actividade económica (que poderá levar a uma recessão), mostra-nos que os efeitos desta situação são, na sua maioria, negativos. A diminuição da actividade económica, o aumento do desemprego e a contracção do investimento são bons exemplos disso.
Mas há também impactos positivos que não podem ser esquecidos, como a diminuição da taxa de inflação (com o abrandamento do ritmo de crescimento dos preços) ou a redução da taxa de juro de referência (que favorece a diminuição das prestações que as famílias e as empresas pagam às Instituições Financeiras pelos seus créditos).
Se estas consequências são sentidas por todos, há ainda outras que não devem ser ignoradas e que poderão representar uma verdadeira janela de oportunidade. Em primeiro lugar, a instabilidade económica vai contribuir para eliminar empresas ineficientes, seleccionar governantes mais competentes e evidenciar trabalhadores mais criativos e dedicados. Isto quer dizer que as empresas eficientes poderão aproveitar os nichos de mercado que vão sendo criados. Em termos políticos haverá lugar para quem tenha ideias novas e eficazes. Relativamente aos trabalhadores, quem for mais dedicado e empenhado, poderá ser mais reconhecido no futuro.
Esta não é a primeira crise económica e não será seguramente a última, pelo que importa aprender com o passado e viver este período não como uma derrota mas como uma oportunidade. Criatividade, imaginação e dedicação serão as chaves do sucesso para ultrapassar a actual conjuntura. Através do empreendedorismo, da criação de associações de empresas, de moradores ou mesmo de Municípios, poderemos gerar sinergias para restabelecer a confiança, resolver os problemas económicos e aproveitar a crise para prosperar. É usual dizer-se que “quando se fecha uma porta, há uma janela que se abre”. Em economia isso também é verdade mas, neste caso, as janelas são inúmeras. Será que as conseguiremos abrir?



Publicado em 10/12/2008 in "Alto Alentejo"

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Desenvolvimento Regional – Um Problema (também) do Alentejo



Nos últimos anos muito se tem falado de desenvolvimento regional e da necessidade de promover o crescimento económico em regiões com fortes assimetrias, como é o caso do Alentejo. Para além dos aspectos relacionados com o bem-estar social, existem outros motivos para combater as assimetrias regionais. O desenvolvimento das regiões potencia a eficiência económico-social do território e das populações numa óptica de coesão.
Pelas estatísticas da União Europeia (dados de 2006), uma extensão significativa do território português continua com níveis de PIB per capita entre 50% e 75% da média comunitária, enquanto a região de Lisboa e Vale do Tejo apresenta um PIB per capita de cerca de 100% da média comunitária. Como este indicador se apoia num rácio entre o PIB e o número de habitantes, conclui-se que em regiões como o Alentejo, a quebra é mais expressiva porque foi acompanhada por uma diminuição da população. No entanto, o problema do Alentejo é ainda mais significativo. Em termos estruturais, verificamos que a assimetria não só existe como está a aumentar. Pelos dados também de 2006, o PIB per capita no Alentejo diminuiu de 76.9% (em 2000) para 70.3% (em 2004) da média comunitária.
Para dificultar a resolução deste problema, constata-se que estamos perante um ciclo vicioso. Quanto mais desigualdades inter-regionais, mais população se refugia nas áreas desenvolvidas do litoral. Quanto menos população, menor o número de votos. Quanto menos votos, menor pressão pública para os responsáveis políticos. Quanto menos pressão política das zonas desfavorecidas, maior o potencial de subdesenvolvimento.
A assimetria estrutural que aqui se pretende evidenciar, exige dos responsáveis políticos e também dos restantes cidadãos uma forte preocupação. Não devemos trabalhar apenas para inverter os rankings mas devemos esforçar-nos para alterar a realidade que representam. Modificar a actual situação é possível mas exige uma forte interligação de esforços para obter sucesso.
Existem inúmeras políticas que podem ser implementadas. Desde os diversos instrumentos segmentados de desenvolvimento até às soluções mais genéricas como as Agências de Desenvolvimento Regional, a contratualização para a descentralização de serviços e investimentos públicos, a criação de Distritos Industriais ou mesmo alterações institucionais como as Regiões Administrativas, todas podem ter efeitos positivos, desde que sejam correctamente implementadas e acompanhadas.
Mas, neste momento, mais importante do que optar pela política regional mais adequada, é conseguir despertar o interesse para o estudo desta realidade e discutir as alternativas ao dispor dos agentes.O sucesso da política será não só dependente da eficácia do processo de análise, decisão, implementação e acompanhamento mas também, e principalmente, do empenho dos políticos e dos cidadãos da própria região.

Publicado em 20-11-2008 in "Alto Alentejo"

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ser mulher ou ser cidadão?

O facto de as mulheres estarem arredadas dos confrontos políticos na Europa não pode ser integralmente culpa do sistema político europeu. Parece-me um pouco redutor a ideia de um sistema político "deixar a desejar" pela falta de cidadãos do sexo feminino em cargos importantes. Como cidadão interessado, importa-me que todos estejamos BEM representados, mais do que estarmos representados em percentagens sociais, ditas quotas. O facto de ser mulher pode ser representativo em termos de paridade mas não implica a existência de uma melhor governação. Daí não concordar com a existência de quotas nem de percentis da sociedade na política. Importa analisar porque não existem mulheres na política, ou jovens, ou outros quaisquer estratos sociais. O sistema político (por exemplo em Portugal) está tendencialmente dominado pelo mesmo circulo politico há mais de 30 anos!! Se analisarmos em detalhe, são as mesmas familias politicas que nos governam desde 1974. E isso não acontece apenas em Portugal! Reparemos na dinastia Bush ou Clinton nos EUA. Com Hillary teriamos de facto a primeira mulher presidente nos EUA mas mais um Clinton. Isso sim, é preocupante. Pois, sem regeneração, teremos cada vez mais politics e menos policy! E, dessa forma, os problemas não são resolvidos mas sim maquilhados! Será que é isso que os cidadãos querem?

Comentário a artigo de Marina Costa Lobo, publicado no Jornal de Negócios 16-06-2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Liberdade ou libertinagem?

25 de Abril de 1974 ficou conhecido como o dia da Liberdade. Apesar da opinião que possamos ter acerca do Estado Novo, em termos concretos, esta data representou um golpe de estado contra o regime em vigor. Supostamente, a partir dessa data os portugueses vivem em Liberdade.
Mas será mesmo assim?
A prova da "Liberdade" em que vivemos é a situação criada com o bloqueio dos camionistas. Pararam os camionistas que quiseram parar e pararam os que não quiseram. Se a liberdade é poder fazer o que se quer, mesmo que isso implique limitar a liberdade dos outros, então os conceitos sociológicos do termo liberdade estão perdidos!
Viver numa sociedade dita livre em que pessoas são obrigadas ou coagidas a não trabalhar, é um distúrbio grave e que terá tendência a piorar.
Mas o próprio governo é culpado desta situação. A não intervenção das forças da ordem transmite uma ideia de sociedade anárquica em que cada um faz o que quer e não é por isso julgado.
Hoje são os transportadores, amanhã os professores, depois os médicos e daqui uns anos serão os militares?
Pode parecer um cenário catastrófico mas a análise politica é bem simples e lógica.
Claro que do ponto de vista do Governo a solução também será fácil: atribuir subsídios a quem se revolta, e carregar cada vez mais a classe média com impostos que calem as revoltas.
Uma sociedade em que a libertinagem se impõe à liberdade e em que o Governo prefere a anarquização à intervenção, é uma sociedade esvaziada de valores éticos e responsabilidade.
Será que ninguém vê isto????

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pseudo-politics

As recentes eleições no PSD mostraram-nos que a politica em Portugal se encontra bipolarizada. Se até aqui este conceito dizia respeito à existência de dois partidos políticos principais que competiam por votos, recursos e poder, actualmente esse fenómeno representa a existência de dois movimentos políticos: o Pseudo-Populísmo e o Pseudo-Elitismo.
Digo Pseudo porque nenhum dos movimentos se afirma como tal. O Pseudo-Populísmo pretende passar uma imagem de rigor e credibilidade enquanto que o Pseudo-Elitismo procura chegar perto do povo (dito sociedade civil em terminologia elitista). Esta tendência é assustadora. Ninguém pretende ter governantes populistas nem mesmo elitistas. Mas soluções ambiguas e criadas artificialmente como forma de obter mais votos e, dessa forma, mais poder, é o principio do caminho para o abismo.
Se analisarmos os manifestos partidários e as orientações partidárias actuais ficamos, no minimo, confusos, muito confusos. Os manifestos pouco ou nada têm a ver com o posicionamento actual dos partidos no espectro eleitoral.
Manuela Ferreira Leite ganhou as eleições internas mas terá de ganhar o país. O combate ao défice que a caracteriza desde que foi Ministra das Finanças dá-lhe a bandeira da credibilidade mas também a da dúvida. Será que um economicista como Manuela Ferreira Leite conseguirá aproximar-se dos problemas reais do país?
O problema financeiro é importante mas não esqueçamos as desigualdades regionais, a pobreza, o peso da administração pública na economia, os problemas ambientais, o desemprego, a falta de recursos energéticos e, até, a falta de água.
Para conquistar o país, o PSD, assim como o PS terão de enfrentar o desafio de atacar os problemas estruturais do país e solucionar os problemas conjunturais. Os pseudo-conceitos são eles próprios conjunturais e, por esse efeito, efémeros. Mas as sociedades ganham-se com soluções, medidas concretas. Pseudo-politicas representam apenas uma perda de tempo e uma ilusão temporária para os eleitores.
Esperemos que os eleitores estejam alerta no momento de votarem e optem pelas soluções e não pelas ilusões.