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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Rap da geração enganada!


A crise chegou


E o ordenado não estica

Sem cheta nos deixou

E a Merkel só critica



Gastámos o que temos

E também o que inventámos

O que pedimos e devemos

Até o ouro levantámos



Éramos ricos, ficámos pobres

Mas o dinheiro não sumiu

Sem subsídios, roubam os cobres

Alguém nos destruiu!



A economia está torta

As empresas desesperam

A política finge de morta

E os roubos proliferam!



Na Europa ainda é pior

Todos espremem o seu sumo

Vivem todos na maior

Mas deixam-nos sem rumo!



Comissão, conselho e parlamento

Tantos órgãos para nada

Basta uma rajada de vento

E vamos todos à fava!



Precisamos de gente jovem

Pr` ajudar onde faz falta

Conseguimos fazer muito bem

Onde definha a outra malta



Dêem lugar aos de trinta

Os de vinte também podem vir

Alguém que não nos minta

Pois os problemas está a sentir!



Portugal queremos dinamizar

É essa a ambição

No futuro vamos pensar

Pois esta é a nossa Nação!

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A “troika” das autarquias

Durante a recente campanha eleitoral discutiram-se alguns assuntos integrantes do Memorando de Entendimento com a troika mas outros houve que nem chegaram a ser abordados. Uma das matérias que parece ter passado despercebida à comunicação social e aos diferentes candidatos foi o impacto das medidas a impor às autarquias.

Segundo o Memorando de Entendimento há um conjunto de medidas que terão influência directa nas autarquias, nomeadamente as seguintes:

- Efectuar um inventário de bens, incluindo imóveis municipais passíveis de privatização (até Junho de 2012);

- Garantir um decréscimo de 2% ao ano dos funcionários das autarquias locais (até Junho de 2013);

- Redução de 15% de cargos dirigentes e serviços até final de 2012, sendo que o plano de cumprimento da redução deve estar completo em Dezembro de 2011;

- Consolidação (ou seja reorganização e redução) do número de Municípios e de Freguesias (actualmente 308 e 4259, respectivamente), cujo plano deve estar efectuado até Julho de 2012;

- Alargar o Simplex aos Municípios, com objectivo de reduzir a carga burocrática (até Março de 2013);

Estas medidas, especialmente direccionadas para as autarquias locais, foram ignoradas pelos diversos agentes políticos no período eleitoral. Podemos alegar que estavam em causa eleições legislativas e não autárquicas. No entanto, tendo sido os partidos políticos (PS, PSD e CDS) a nível nacional a aceitarem estas condições, não deveriam os cidadãos ter sido esclarecidos sobre a complexidade das mesmas?

Por exemplo, alguém sabe de que forma serão reduzidos em 15% os cargos dirigentes das autarquias? Qual o critério que vai ditar o encerramento de Municípios e Freguesias? Quais as autarquias que serão extintas e onde ficarão centralizadas as “sobreviventes”? Dado que os Municípios são o garante do emprego em muitas regiões do país, que alternativas de trabalho terão os jovens nesses locais?

Os prazos para cumprimento destas medidas são muito exigentes e, para serem cumpridas atempadamente, obrigarão a uma “revolução institucional” ao nível autárquico. A situação do país obriga a esta racionalização de estruturas mas poderão existir vários caminhos para atingir o mesmo fim com custos diferentes para os eleitores.

Dado que o impacto destas medidas afectará sobretudo as regiões do interior, caberá principalmente aos políticos locais e aos órgãos de comunicação social regionais questionarem o poder central sobre as mesmas e os seus efeitos para as populações.

Dependendo o financiamento externo da concretização dos items referidos no memorando de entendimento, urge esclarecer os cidadãos sobre estas e outras medidas que serão implementadas.



Nuno Vaz da Silva

Economista




Artigo publicado na edição de 29/06/2011 no jornal "Alto Alentejo"

quarta-feira, 23 de março de 2011

As diferentes velocidades do Alentejo

Pelos dados da Direcção de Prospectiva e Planeamento do Ministério das Finanças, entre 2000 e 2006 a região do Alentejo registou uma tendência de convergência com a média da riqueza nacional (com uma variação positiva no VAB* de 4.3%), o que seriam óptimas notícias!

Mas, se analisarmos a estatística em detalhe, verifica-se que esta convergência foi conseguida à base de um forte decréscimo da população -4.9% e de uma subida dos preços de 4%, uma vez que a produtividade decresceu igualmente 4%. Ou seja, uma estatística aparentemente simpática pode esconder aspectos muito negativos e gravosos para uma região…




Falar no Alentejo significa uniformizar uma área geográfica de 31.500 m2, com 753.000 habitantes. Há muitos “Alentejos” com diversos níveis de desenvolvimento. Nesta mesma estatística verifica-se que temos um Alentejo Litoral e um Baixo Alentejo em desenvolvimento, impulsionados pela actividade gerada em Sines e Neves Corvo e um Alto Alentejo (representado neste quadro apenas pelo Distrito de Portalegre) e um Alentejo Central (Distrito de Évora) em divergência com percentagens de variação negativa do VAB de -4.9% e de -7.4% respectivamente.

Se isolarmos os valores correspondentes ao Alto Alentejo, o VAB per capita aumentou 3% e o emprego cresceu 2.9% (o que poderiam ser óptimos resultados) mas a população reduziu 7.4% e a produtividade decresceu 7.2%. Aliás, o Alto Alentejo (Distrito de Portalegre) foi a sub-região Alentejana que mais população perdeu em percentagem neste período!

Quando os governantes falam de desenvolvimento regional falam das macro-regiões. Falam de um Alentejo com Sines, com o Aeroporto de Beja, com o Alqueva, com Neves Corvo e com Auto-Estradas que ligam as capitais de Distrito às redes logísticas. Mas a micro-região Alto Alentejo e nomeadamente Portalegre são realidades distintas. A auto-estrada passa em Elvas mas fica demasiado longe da capital de Distrito, as áreas tradicionais como o turismo e artesanato são insuficientes para fixar população e o facto de não existirem investimentos públicos impulsionadores para a região, leva os jovens a procurarem melhores condições de vida noutras regiões do país ou do estrangeiro. A convergência da região com a média do país pode até ser conseguida estatisticamente no curto prazo, pela via do decréscimo populacional, mas isso é também uma ameaça para o futuro da região por não ser sustentável a médio prazo. Nenhum dos grandes projectos previstos no Alentejo até 2030 terá impacto positivo em Portalegre. São eles o aeroporto de Lisboa em Alcochete (com impacto em Vendas Novas e Évora), a expansão do porto de Sines, a ligação ferroviária Sines-Badajoz, as “auto-estradas do mar”, a plataforma logística do Poceirão, a plataforma logística de Elvas/Caia, o caminho-de-ferro de alta velocidade, o IP8 Sines-Andaluzia, o aeroporto de Beja e a rede de rega de Alqueva.

O Alentejo pode estar em convergência mas o Distrito de Portalegre ficou esquecido dos governantes. Fica demasiado longe para ir de fim-de-semana e demasiado perto para criar uma centralidade própria. Não tem ouro, petróleo, portos, aeroportos nem pirites. Pessoas cada vez tem menos e as empresas que subsistem tentam sobreviver nesta dura realidade. Quando os governantes despertarem para este problema, talvez seja tarde demais. Será preciso começar tudo do zero: pessoas, empresas, estratégia e motivação!

Cada um de nós tem a sua responsabilidade própria que será tanto maior quanto a responsabilidade dos cargos ocupados e a capacidade de influência junto de quem decide!

Não deixemos o Alto Alentejo ficar esquecido!





Valor acrescentado bruto (VAB) é a soma da actividade produtiva, no decurso de um período, para uma determinada região. Resulta da diferença entre o valor da produção e o valor do consumo intermédio, excluindo impostos e subsídios; VAB = PIB – (impostos - subsídios)

 
 
 
Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 23 Março 2011

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Orçamento para 2011 nada resolve

Desde a chamada reentré partidária que a agenda mediática tem sido preenchida com notícias, comentários e desmentidos sobre o Orçamento de Estado. Discute-se quem aprova, quem viabiliza e quem vai pagar as más politicas públicas dos últimos anos. Não nego que se trata de um assunto muito importante na vida de todos e que importa estarmos informados para sabermos o que nos reserva o Estado para 2011. Ainda assim, e comparado com o real estado do País, este é um mero problema de conjuntura.

O que me surpreende é que poucos órgãos de comunicação social e poucas personalidades se preocupem com o pós 2011. Com este orçamento, depois de 2011 Portugal será um país mais pobre, com inúmeros desempregados e principalmente sem estratégia.

Neste momento, alguém sabe qual a estratégia de Portugal para sair da crise? Será que existe sequer alguma estratégia?

Com o aumento de impostos e o corte nos salários, os portugueses ficam com um poder de compra mais reduzido, o que originará menos consumo, menos poupança e menos investimento. Aos efeitos de uma eventual depressão, temos de adicionar o deficit da balança comercial. Se continuarmos a preferir importar em vez de produzir internamente, o tecido empresarial terá mais dificuldades em se estabelecer. Devemos ainda contar com o potencial aumento dos juros nos créditos assumidos pelos particulares e empresas (o que acontecerá com a recuperação da economia alemã). Assim, a concessão de crédito será mais cara e limitada. Não posso concluir que, neste cenário, o PIB possa aumentar em 2011!

Sistematizar este resultado é aparentemente fácil mas se já sabemos que 2011 vai ser difícil, o que será do País em 2012?

Se nada for feito, a divida pública continuará a aumentar e continuaremos também a empobrecer alegremente com sucessivos Planos de Estabilidade e “Crescimento”. O “Monstro” da Administração Pública continuará a engordar insustentavelmente! E não há PEC`s nem aumentos de impostos que o resolvam de uma vez!

O problema do país não é o deficit conjuntural mas sim o modelo económico assumido no pós 25 de Abril. Independentemente da intervenção do Estado na Economia que ideologicamente queiramos defender, a verdade é que não geramos suficiente receita para manter a estrutura de custos que temos (e que continuaremos a ter em 2011). Até podemos reduzir o deficit mas continuamos a aumentar a divida pública que ultrapassará os 86% do PIB já em 2010 (embora alguns estudos indiquem que já ultrapassámos 100% do PIB). Simplificando, e considerando os 86% estimados pela OCDE, se quiséssemos amortizar toda a divida do Estado num único ano, teríamos de colocar todos os portugueses a trabalhar 310 dias só para pagar a divida publica (isto sem considerar o valor dos juros). Como isso não acontecerá, a divida continuará a aumentar até que nos continuem a emprestar dinheiro. E, como “não há almoços grátis”, pagaremos juros cada vez mais caros na mesma medida em que estamos a asfixiar as gerações futuras, mesmo antes de nascerem!

Logo, este Orçamento que se discute até à exaustão é apenas um reflexo daquilo que os economistas já tinham perspectivado. É importante? Claro que sim! E resolve os problemas estruturais do país? Obviamente que não! Apenas os esconde por mais um ano. E em 2012, quem sabe se não voltamos a ter novas e maiores medidas de contenção financeira!

Portugal necessita sobretudo de uma discussão urgente quanto à estratégia do país, sobre o papel do Estado na Economia e qual o modelo de governação mais adequado e eficiente. Claro que os políticos não se interessam por isto porque vivem preocupados com as lutas partidárias e com as próximas eleições. Dado que os partidos deixaram também a ideologia de parte, terá de ser a sociedade a encontrar formas de estudar e discutir estes temas. Estou em crer que só assim poderemos aliviar a factura que estamos a deixar aos nossos descendentes!



Breve dicionário de termos económicos:

PIB – Produto Interno Bruto – representa a soma em termos monetários de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região.

PEC – Plano de Estabilidade e Crescimento – conjunto de medidas implementadas, ou a implementar, que se destinam a reequilibrar as contas públicas e a recuperar o crescimento da economia.

Déficit Público – saldo negativo entre as Receitas e as Despesas públicas. Quando o saldo é positivo denomina-se superavit

 
 
Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 3 Novembro de 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Triângulo Turístico Marvão – Castelo de Vide – Portalegre, uma região privilegiada!


“Há terras, lugares privilegiados. Têm alguma coisa que os individualiza, que os distingue, que faz distinguir os seus naturais. Clima, situação geográfica, hidrografia, geomorfologia, vegetação. Serão estes os factores chave? Ou serão antes os factores históricos, a dureza da vida, a experiência de séculos?” Assim começa o prefácio de Diamantino Sanches Trindade ao livro “Terras de Odiana” de Possidónio Laranjo Coelho, uma das mais notáveis obras escritas sobre os costumes, as gentes e a história da região que compreende os actuais concelhos de Marvão e Castelo de Vide.

Fala-se muito do triângulo turístico Marvão – Castelo de Vide – Portalegre mas para além dessa vertente turística, a região tem uma forte componente humana, social e de relacionamento com a natureza que a distingue. Muito daquilo que somos hoje se deve a factores históricos. E esses estão relacionados com aspectos endógenos da região como as nascentes de água, a qualidade dos terrenos, a beleza das paisagens e a situação geográfica. Durante anos, o Homem soube aproveitar a extraordinária riqueza desta região: Aproveitou a qualidade, a abundância e a diversidade das águas para consumo, para a agricultura e mesmo para a saúde. Utilizou os terrenos férteis para sobreviver e comercializar os produtos. Apoiou-se na geografia do terreno para se proteger e para ambicionar novas conquistas. E recorreu à capacidade de trabalho de muitos habitantes para desenvolver actividades industriais como a cortiça ou os lanifícios.
Hoje discutem-se os problemas regionais nos cafés, jornais ou nas redes sociais da internet, e de facto eles existem: Poucos empregos, fuga da população jovem para regiões e países mais desenvolvidos, vias de comunicação desajustadas, excessivo peso do sector público nos empregos existentes, poucas iniciativas do governo central para promoção do desenvolvimento, e desânimo progressivo da população face à situação económico-social da região.
Mas, mesmo considerando os problemas existentes, concordo com Diamantino Sanches Trindade quando refere que esta é de facto uma região privilegiada, a ver até pelo meu exemplo pessoal: Apesar de trabalhar em Lisboa continuo a ter saudades da vista deslumbrante de Marvão, da riqueza das fontes e brasões de Portalegre, do ambiente bucólico da vila e da vida social das gentes de Castelo de Vide, das feiras das cerejas, das cebolas, do verde dos soutos de castanheiros da encosta de Marvão, do sabor inconfundível das boleimas, das empadas, dos rebuçados de ovos e da groselha, do paladar dos vinhos, dos queijos e dos enchidos, do cheiro da terra molhada, das sombras da Portagem nos dias quentes de Verão, do espólio maravilhoso dos museus, das chaminés da Robinson que ainda “vejo” a cozer cortiça, saudades das cascatas, das nascentes e dos cursos de água, de ver os pássaros pelas costas nas muralhas de Marvão, das pedras cheias de história das antas, dos menires e da Ammaia, do nascer do sol em São Mamede e, sobretudo, saudades das pessoas! Não apenas da família e dos amigos mas saudades do olhar e da hospitalidade das gentes locais sempre disponíveis para ajudar quem delas necessita.
Vivemos alguns problemas económicos, isso é indesmentível, mas ninguém nos pode tirar a riqueza da nossa cultura, da nossa história e os atractivos que fazem desta uma região privilegiada.
Sou dos que consideram que esta é uma região com futuro, com potencial turístico e natural ainda por explorar. E, não sou seguramente o único. Quem vem a esta região geralmente volta e isso só acontece porque se sente bem por aqui, porque foi bem acolhido, porque viu paisagens únicas... porque sente saudades! Nos últimos tempos, o Tripadvisor elegeu Marvão um dos 10 segredos de viagens mais bem guardados, o The New York Times considerou o Alto Alentejo um destino desconhecido mas não por muito tempo, a revista da Easyjet descreveu o Parque Natural da Serra de São Mamede como uma zona de eleição para desfrutar da riqueza da natureza.
São boas notícias para esta região e para as terras de Garcia D`Orta, Mouzinho da Silveira e José Régio. São sinais que a “matéria-prima” continua a existir e é reconhecida internacionalmente. Marvão não foi eleita Património Mundial, Portalegre não está no mapa das Auto-Estradas, o Campo de Golfe foi uma desilusão mas o clima, a situação geográfica, a hidrografia, a geomorfologia e a vegetação são os mesmos de sempre, assim como o sangue dos naturais deste triângulo privilegiado é idêntico ao dos antepassados que conseguiram sobrepor os aspectos positivos às contrariedades da história e que fazem desta uma região a visitar, a saborear, a apreciar e onde se deseja regressar!

Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 8 Setembro de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O estado da Nação

O estado da Nação alterou-se radicalmente nos últimos meses. Desde as últimas eleições legislativas que deram uma maioria relativa ao partido do Governo, Portugal registou inúmeras alterações ao nível económico, político e social.

Tivemos episódios de má governação e depois fomos obrigados pelos parceiros europeus a assumir as responsabilidades. Assistimos a ataques do próprio governo e da oposição ao Estado, e mais tarde uniram-se ficticiamente para “iludir” os parceiros externos. Foram anunciadas muitas medidas de aumento de impostos mas poucas de diminuição da despesa. E, acima de tudo, ouvimos os políticos e diversos comentadores falar sobre todos os assuntos mas não sabemos em quais acreditar.
Contudo, não é fácil eleger um de tantos assuntos para escrever umas linhas.
O estado do nosso país não é apenas sinónimo de dificuldades financeiras, de impostos a subir e de rendimentos a decrescer. Portugal é hoje um dos piores exemplos da economia na zona euro. Trata-se de uma economia com reduzida capacidade exportadora, com taxas de desemprego elevadas, grandes disparidades sociais e regionais, e com um tecido empreendedor que luta para ultrapassar as dificuldades da burocracia.
Há ainda um problema de valores inerente à actuação de muitos agentes políticos. Quando o Presidente da República decide contra a sua consciência, abdicando dos seus poderes em prol de questões de agenda política, algo de muito grave se passa nos valores da sociedade. O mesmo se verifica quando comentadores dizem que este ou aquele politico mentiu mas mais vale deixá-lo ficar no seu cargo porque a situação do país não suporta mais instabilidade. Temos ainda governadores de bancos que dizem uma coisa hoje porque estão num determinado cargo e amanhã dizem outra porque deixaram de ter o mesmo vínculo laboral…
É caso para dizer: Portugal, assim não vamos lá!
Este Estado em que não é preciso ser mas basta parecer não serve aos portugueses. A ilusão de que está tudo bem e que basta aumentar uns impostos para resolver uma crise não passa de maquilhagem. Os grandes problemas do país estão a montante e para esses necessitamos de medidas urgentes: Temos problemas na Justiça que continua demorada e com muitas ineficiências, na Educação que não prepara os jovens para serem empreendedores, na Administração Pública que é ainda demasiado burocrática, temos disparidades regionais com a inexistência de uma política de segmentação positiva do interior do país e, acima de tudo, existe dificuldade na identificação de líderes que sejam verdadeiros, que não sejam permeáveis a lobbies, que respeitem os contribuintes mas essencialmente que tenham um projecto estratégico para o país.
Os problemas podem ser resolvidos? Claro que sim! Então porque não se resolvem? Porque exigem soluções a médio prazo mas os governantes preferem gerir a sua carreira pessoal no curto prazo do que projectar o país no futuro!

Assim sendo, o que vai acontecer a Portugal?

Provavelmente continuará a ser o país de Fátima, do Futebol e do Fado. Desse Fado (destino) que podia/pode ser auspicioso mas que continuará a ser de saudade de um país vanguardista que já fomos mas tardamos voltar a ser!

Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 7 Julho de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Interioridade, o eterno problema ou a desculpa de sempre?

O conceito de interioridade tem servido para justificar todos os pontos fracos a que as regiões do interior estão relegadas. Fala-se de interioridade para explicar o êxodo migratório para o litoral, para desculpar a reduzida atractividade de investimentos e até para minimizar a falta de competitividade dos agentes económicos. Em suma, o conceito de interioridade serve de desculpa para todos os tipos de ineficiência das regiões do interior.

Quando os detentores de cargos públicos regionais e locais discursam, é vulgar ouvirmos o chavão “Interioridade” como se este conceito representasse uma doença degenerativa que inviabiliza todas as boas ideias e as supostas excelentes iniciativas que se querem levar por diante. Não se nega que o posicionamento geográfico é um dos factores que influencia o desenvolvimento regional mas não podemos aceitar que seja o bode expiatório para todos os insucessos públicos e empresariais. Factores como a falta de espírito empreendedor, a inexistência de políticas de marketing, a escassez de acessibilidades, o difícil recurso ao crédito ou mesmo a falta de mão-de-obra qualificada representam problemas mais graves para as regiões do que o posicionamento geográfico.
O aspecto positivo é que todos estes factores, à excepção do posicionamento geográfico, podem ser combatidos e corrigidos. Além disso, um “problema” que não tem solução, dificilmente pode ser considerado um problema!!!!
Não podemos ainda esquecer que existem localidades do interior que se têm desenvolvido e que devem ser encaradas como exemplo. À escala mundial, embora numa outra dimensão, Madrid, Paris, Berlim e Milão são cidades que não estão geograficamente posicionadas no litoral. A nível regional, temos também alguns exemplos de localidades do interior que têm sabido e conseguido utilizar a interioridade como uma vantagem. São disso exemplo Évora, Castelo Branco, Badajoz ou Cáceres.
Ou seja, a interioridade só por si não pode ser aceite como desculpa para as ineficiências de uma região ou localidade. Para além disso, se o posicionamento geográfico é das poucas coisas que não podem ser alteradas, mais vale saber aproveitar essa característica do que passar a vida a indicá-la como problema que limita os horizontes.
Há inúmeras oportunidades que podem e devem ser aproveitadas nas regiões do interior, desde que as entidades públicas definam um correcto e ambicioso plano de desenvolvimento territorial e empresarial sustentado por políticas estruturais dinâmicas.
Não nos lamentemos dos recursos que temos ou da falta deles! Mas façamos alguma coisa por resolver os problemas em que podemos interferir.

Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 7 Abril de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Portugal e o “fado” da Instabilidade



Portugal vive actualmente mergulhado num conjunto de problemas graves e que tardam a ser resolvidos. O desemprego continua a aumentar, a divida pública não pára de crescer, o produto interno cresce a um ritmo inferior à média comunitária, o maior partido da oposição continua dividido e com liderança enfraquecida, e o governo parece mais preocupado em maquilhar os dados do que em resolver os problemas.

O nosso país foi ainda arrastado pela crise económico-financeira mundial e continua vulnerável a potenciais novas recaídas dos mercados bolsistas.
É um cenário realmente preocupante e que devia levar à união de esforços para resolver os problemas através de soluções eficazes e sustentáveis. No entanto, não é exactamente isso que tem acontecido. O país contínua centrado em casos judiciais, fala-se no risco de eleições antecipadas e estamos em suspense com a nossa participação no Mundial de futebol…….sempre o futebol!
Portugal continua a não despertar para os verdadeiros problemas. Vive-se para a política e não para o país, discutem-se decisões judiciais, pondera-se combater a corrupção e brincamos às estatísticas. Mas não se apresentam soluções, não se discutem políticas, arranjam-se fait-divers para distrair a opinião pública.
Os principais culpados somos todos nós porque não participamos na política activa mas os políticos “profissionais” não estão seguramente isentos de culpa.
Portugal precisa de um novo paradigma de desenvolvimento, ou melhor, precisa de um verdadeiro modelo de desenvolvimento sustentável! Necessita de uma estratégia a médio prazo com objectivos concretos que potenciem as capacidades dos portugueses e do seu território. Não podemos continuar com a politica do litoral desenvolvido, abdicando do interior cada vez mais desertificado e esquecido. A política dos chavões, da demagogia e da amizade tem de dar lugar à competência, à responsabilização, ao mérito e à dedicação.

Para que ocorram estas alterações, o país tem de progredir, tem de abdicar do corporativismo instalado na sociedade, tem de modernizar a administração pública e diminuir o peso do Estado na sociedade, aumentando a competência nas suas principais tarefas como a Justiça, a Defesa e a gestão eficiente dos impostos dos contribuintes. E isso depende do Governo, dos Sindicatos, dos Partidos e das Associações, no fim de contas, depende de todos nós.
O cidadão comum, usualmente encolhe os ombros e prefere não dar opinião, não apresentar soluções, não exigir responsabilidades. Mas esta atitude tem de dar lugar a uma vivência social mais activa por parte de todos, seja em partidos políticos, nas empresas, em movimentos cívicos, na internet, e em ONGs.

Portugal necessita de uma liderança, precisa de um caminho e de uma esperança de futuro que catapulte a desmotivação generalizada para a ambição de sermos melhores e mais produtivos. Se todos querem ganhar no futebol (onde só jogam 11 portugueses), porque é que essa ambição ainda não transbordou para a vida de cada um de nós? Ser ambicioso representa um verdadeiro desígnio nacional que o Estado tem de apoiar com responsabilização, com ética e com rigor.
Muitos dizem que isso nunca acontecerá. Mas todos os que dizem isso, não se poderão queixar do Portugal que têm. Portugal tem de progredir e isso depende de todos mas principalmente de cada um! Não, não podemos dizer apenas que amanhã será diferente.
A mudança de paradigma tem de começar quanto antes, ou seja, hoje!

Nuno Vaz da Silva in Jornal "Alto Alentejo", edição de 03/03/2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Economia e Ambiente: bens substitutos ou bens complementares?



O ambiente e a economia são muitas vezes referenciados como dois bens substitutos. A ser verdade, isso significaria que não existe uma relação recíproca de complementaridade entre estes dois bens. Simplificando, a sociedade teria de escolher entre ter uma boa economia e um mau ambiente ou um bom ambiente e uma má economia. Mas será que o único mecanismo que gera riqueza obriga a que se abuse dos recursos naturais?

Os recursos naturais são obviamente a base da economia e todos os produtos que dão origem às trocas comerciais são retirados directa ou indirectamente da natureza. Para termos economia necessitamos de recursos naturais e, se não tivermos recursos, não temos economia. No entanto, dizer que são dois bens substitutos talvez não seja correcto por dois motivos fundamentais:

1- Uma economia estável e dinâmica apoia-se no chamado desenvolvimento sustentável. Este conceito representa um crescimento da actividade económica que não compromete as gerações futuras. Por outras palavras, o desenvolvimento sustentável implica a melhoria do bem-estar-social, considerando os aspectos económicos e ambientais, actuais e futuros.

2- O ambiente pode ser analisado como oportunidade de negócio sem que o tenhamos de sacrificar. Hoje em dia existem inúmeras actividades que se apoiam no ambiente e que podem ser geradoras de receitas, postos de emprego e fontes de dinamismo social, como por exemplo as energias renováveis, a reciclagem, a agricultura e silvicultura biológica, o turismo, o artesanato, a culinária e muitas outras.

A lógica do crescimento económico rápido e sem qualquer preocupação com a sustentabilidade está completamente ultrapassada. A economia dos nossos dias é a economia do desenvolvimento sustentável e não do crescimento a qualquer custo. Mesmo os países e regiões onde as preocupações ambientais estão no limiar da indiferença, terão de rever o seu posicionamento estratégico a curto prazo por imposições legais, por exigências sociais ou mesmo por insustentabilidade ambiental.
Em regiões com potencial turístico associado a condições naturais de excepção, o ambiente deverá ter ainda mais relevância e o desenvolvimento sustentável não pode ser um conceito vago. Certamente terá de existir uma boa dose de criatividade para gerar uma economia dinâmica sem comprometer o ambiente. Mas de nada serviria hipotecar o ambiente se esse é um dos maiores recursos. Não só é possível gerar (ao mesmo tempo) desenvolvimento económico e qualidade ambiental, como é desejável que assim aconteça. Com as ferramentas técnicas adequadas (muitas delas fornecidas pela Economia do Ambiente) é hoje possível efectuar inúmeras análises e relacionar items tão diversos como a poluição, o desemprego, a qualidade de vida e o rendimento. Afinal de contas, a economia não é uma ciência isolada das restantes e os efeitos de alterações ambientais têm necessariamente repercussões ao nível económico e vice-versa.

Ambiente e Economia são bens complementares e, na gestão de ambos, devemos recordar o Chefe Seattle na sua resposta (sobre a intenção dos EUA adquirirem o território ocupado pelos indígenas) ao presidente dos EUA Franklin Pierce em 1854:
“(…) Tudo o que agride a terra, agride os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um dos seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo (...)”

Nuno Vaz da Silva,
in Jornal "Alto Alentejo", edição de 06/01/2010

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Nós (também) por cá, no Concelho de Marvão - Vale de Rodão





Os Municípios são entidades públicas que têm o dever de zelar pelo espaço público onde se inserem. Têm o dever de zelar pela cultura, pelos valores, pela economia e pelo desporto – no fundo têm o dever de se preocuparem com o bem-estar-social e tudo o que isso representa para os Munícipes que suportam financeiramente (através dos impostos e das taxas) os funcionários da autarquia.

Dito isto, como é que uma autarquia que é avisada há mais de um ano e meio para uma troca de nome numa localidade de um concelho continua a permitir que a troca não seja corrigida, apesar da sucessiva troca de correspondência e de alertas?
Será que é preciso levar o assunto à televisão para que seja reposta a verdade cultural do Vale de Ródão - Concelho de Marvão?

O que acontecerá quando a velhinha placa cair definitivamente ou desaparecer?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Deputados Eleitos por Portalegre, não se resignem!



No momento em que escrevo estas linhas, desconhece-se ainda quem serão os Deputados eleitos por Portalegre. Da mesma forma se desconhece quem ganhou as eleições e quem será o primeiro-ministro.


No entanto, apetece-me dizer: Deputados eleitos por Portalegre, não se resignem!



Não se resignem ao facto de serem apenas 2 representantes do Norte Alentejano na Assembleia da República


Não se resignem por haver cada vez menos população no Distrito!


Não se resignem à tendência politico-partidária de aposta no litoral em detrimento do interior!


Não se resignem por Portalegre ser a única capital de Distrito sem auto-estrada construida nem com o concurso público para construção já lançado!


Não se resignem por não haver ligação da A6 ao IP2 em Estremoz!


Não se resignem por haver cada vez menos empresas no Distrito de Portalegre!


Insurjam-se por não haver uma política central de discriminação positiva das regiões com maiores assimetrias!


Não se acomodem à lógica de votarem segundo as orientações do partido e não pelas ambições do Distrito!


Sejam criativos na forma de apresentação das políticas na Assembleia!


Ouçam os vossos concidadãos e lembrem-se que foram eles que vos elegeram!


Vivam a experiência de ser deputado como uma missão e não como um emprego!



Desejem que daqui a 4 anos, o Norte Alentejano esteja mais desenvolvido sustentavelmente!


Levem os problemas do nosso Distrito à Assembleia e dêem-nos a conhecer a todos os portugueses!


Apresentem soluções, projectos, estatísticas, imagens e casos de sucesso!


Mostrem que o Alentejo é mais do que Évora e Beja!



Em resumo, façam-nos ter orgulho de vós, independentemente das vossas cores partidárias. Não se esqueçam das vossas origens e de quem vos elegeu. O Distrito de Portalegre necessita da vossa acção diária. Necessitamos de mais pessoas, mais empresas, mais turismo e melhor qualidade de vida. Não queremos ter mais do que todos os restantes portugueses mas exigimos as mesmas condições, a mesma preocupação do Estado e dos seus representantes.


A vossa acção política não termina com a vossa eleição. Mas agora é que vai começar a vossa tarefa mais importante: Representar os Norte Alentejanos!


Por isso, e mais uma vez, Deputados eleitos por Portalegre, não se resignem!



Nuno Vaz da Silva in jornal "Alto Alentejo", 30-09-2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Como resolver (e não apenas disfarçar) o problema do desemprego?




Os números sobre o desemprego não param de aumentar. No primeiro trimestre de 2009 registou-se o maior número de desempregados dos últimos 23 anos, com 495.800 pessoas inscritas nos centros de emprego, das quais 27% representavam indivíduos qualificados.

O fenómeno do desemprego é um dos grandes problemas sociais. O desemprego afecta o bem-estar social do individuo e do seu agregado familiar. Famílias com pessoas desempregadas têm menos rendimentos disponíveis e, por consequência, uma menor qualidade de vida.
Para minimizar o problema social e como forma de auxílio à integração no mercado de trabalho, o Estado atribui um subsídio aos cidadãos desempregados. Este mecanismo de recurso e de compensação é suportado financeiramente pelos impostos cobrados aos contribuintes. Quantos mais desempregados houver, mais subsídios o Estado terá de pagar e menos disponibilidade de recursos haverá para outros gastos e investimentos públicos.
Muitas vezes o Estado procura resolver o problema do desemprego através da contratação pública. É certo que, dessa forma, o número de desempregados diminui mas a questão dos recursos mantém-se porque são os mesmos contribuintes que pagam os subsídios de desemprego que têm de pagar os ordenados desses trabalhadores contratados (ou empregados, porque as duas expressões nem sempre são sinónimos). Pior ainda, acabamos por ficar com um outro problema que é o excessivo e progressivo peso da Administração Pública na sociedade, o que implica a existência de cada vez maiores impostos ou maior divida pública (ambas as fontes de receita são insustentáveis no longo prazo).
Como esta forma de disfarçar a situação pode potenciar maiores complicações orçamentais, o Estado (e mesmo a sociedade civil) deveria optar por soluções estruturais. Uma sugestão seria o reforço de competências nas Universidades, nos Institutos Politécnicos e até nos Centros de Formação Profissional com o objectivo de fomentar o empreendedorismo dos seus alunos. Para isso, seria fundamental aumentar os protocolos de relacionamento das instituições de ensino com empresas e com a própria Administração Pública. Só a existência de redes de troca de competências pode contribuir para criar verdadeiros Industrial Districts que permitam a dinamização de uma determinada região. Uma outra solução seria a formação dos desempregados em áreas específicas como a criação de empresas, o microcrédito, o voluntariado ou mesmo o serviço público. Afinal de contas, a maior riqueza das regiões é o seu capital humano, pelo que é fundamental apostar na inovação, na criatividade e na irreverência de cada pessoa.
Não podemos continuar a resolver os problemas do presente com as soluções do passado, principalmente quando essas mesmas soluções contribuem para um maior atraso estrutural do país e das regiões! O desemprego é apenas um desses problemas mas talvez seja dos mais complicados de solucionar. Atacar os números sem resolver o fenómeno significa maquilhar a realidade, não com a redução do desemprego mas sim com a migração (a médio prazo) da população para regiões e países em desenvolvimento, e com melhores perspectivas de futuro.
Encobrir os problemas até pode traduzir-se na obtenção de mais votos no curto prazo mas será sempre sinónimo de mais atraso, menos desenvolvimento e maior afastamento das populações da vida política no longo prazo! Serão os votos mais importantes do que o desenvolvimento?

Artigo publicado na edição de 24/06/2009 do jornal "Alto Alentejo" by Nuno Vaz da Silva

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Discurso de António Barreto no âmbito das comemorações do 10 Junho de 2009

"Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Santarém, 10 de Junho de 2009

Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro-ministro,
Senhores Embaixadores,
Senhor Presidente da Câmara de Santarém,
Senhoras e Senhores,

Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também
pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da
Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem
tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os
Portugueses. Onde quer que vivam.
Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias
diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por
isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por
Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que
colchas às varandas, precisavam de cultura.
Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi
"exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar
imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes,
cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.
Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal
gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei,
nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos
a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um
poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se
julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não
virem armadilha ou manipulação.
Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o
passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para
renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à
tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências
contemporâneas.
Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E
simplicidade.
Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores
poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua
perenidade.
Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos
séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo
com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.
Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos
talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.
Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é
Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o
melhor.
Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito
insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes,
pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes
ou símbolos de uma superioridade obscena.
Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas
também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de
cuidar da democracia.
As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O
carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita
nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e
consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção
entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de
resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não
apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua
obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber
o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por
vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a
liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.
Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas
ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia
absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que
é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.
Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um
Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.
Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo.
Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.
Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo,
submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.
Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e
credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as
associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.
A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas
relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.
A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um
facto consumado.
A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o
Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É
certamente uma das realizações maiores.
Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de
mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.
A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem
para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de
mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a
próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um
pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima
abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das
instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado
por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de
Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem
tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo,
uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam
mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o
seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar
o passado com o futuro.
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo
tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de
sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os
portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do
que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com
discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com
mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus
melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas
responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira
preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para
quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de
esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se
o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de
honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a
crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia
sentirá os seus efeitos.
Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de
excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de
que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão
melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções
empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas
para o esforço de recuperação do país."

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quando acabará a crise?



É impossível olhar para qualquer jornal, revista ou outra fonte de informação sem nos depararmos com a crise económico-financeira que se tem abatido na sociedade mundial. São notícias de abrandamento da actividade económica, aumento do desemprego, fecho de empresas, instabilidade social…
Com este panorama é difícil compreender que alguns políticos tenham defendido há poucos meses que a crise já tinha passado e não iria sequer afectar Portugal. Mas isso é reflexo da (medíocre) qualidade das análises económicas efectuadas por diversos responsáveis políticos.
O maior problema decorrente da instabilidade económica é a quebra de confiança que se generalizou por toda a sociedade mundial. Houve quebra da confiança nas instituições financeiras, nas empresas, nas instituições públicas e nas próprias famílias. Este factor levou a que todos os agentes tivessem, e continuem a ter, maiores precauções nas suas mais diversas tomadas de posição. Os bancos têm critérios mais apertados na concessão de crédito, as empresas suspendem decisões de investimento e as famílias tentam optar pelas suas melhores opções de consumo, privilegiando bens essenciais e reduzindo os gastos.
Não é difícil compreender que, com este cenário, a crise seria inevitável.
Mas nesta altura, a pergunta que se impõe é: Quando acabará esta crise?
Infelizmente, ninguém pode garantir quando irá terminar este período. Dado que é um problema global, acabamos por sofrer as consequências do que acontece por esse mundo fora mas devemos preparar-nos para a retoma, venha ela quando vier.
Um país e uma região preparados para a retoma conseguirão obter vantagens competitivas face a outros países e territórios. Como os recursos locais e regionais são relativamente diminutos, é necessário que a sua utilização seja rigorosa e eficaz. Por exemplo, faz todo o sentido que se prescinda das obras e festas de cariz eleitoralista em benefício de investimentos sustentáveis e produtivos. Para além disso, cabe aos autarcas e aos deputados eleitos pelos distritos a importante missão de lutar pela canalização de fundos das finanças centrais para o desenvolvimento regional. E essa tarefa é bem mais importante do que a distribuição de propaganda eleitoralista ou do que a distribuição de cumprimentos aos eleitores que se verifica no período pré-eleições e que termina no dia seguinte à votação. Seria interessante perguntar a cada candidato que nos cumprimentar durante o período eleitoral, o que fez pelos problemas do distrito (para os que se recandidatam) ou o que irão fazer por esta região (para os que se candidatam pela primeira vez). Fica a sugestão porque só a exigência e o rigor podem servir de alicerces seguros para enfrentar a crise e preparar o futuro com responsabilidade, confiança e sustentabilidade.


Nuno Vaz da Silva in "Alto Alentejo" 22/04/2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Investimento, a solução para a crise?


Inúmeras intervenções públicas têm defendido o recurso ao investimento como forma de ultrapassar a crise económica que enfrentamos. Fala-se que devemos investir em obras públicas, nas empresas, que a economia tem de ser dinamizada e até já se ouviu dizer que o deficit devia deixar de ser preocupação essencial na gestão das contas públicas.
Sendo verdade que a Economia necessita de um choque exógeno e que o “Bom Investimento” pode ser a ferramenta de eleição, não é menos verdade que o “Mau Investimento” será seguramente a causa de maiores desigualdades internas e externas.
Mas qual a diferença entre estes dois conceitos?

Um Bom Investimento permite um retorno superior ao capital investido, gerando economias de escala. Já um Mau Investimento tem um impacto económico e/ou social negativo face ao capital inicial, produzindo deseconomias de escala. Adoptando uma outra linguagem, o Bom Investimento promove o lucro e o bem-estar-social, o Mau gera o inverso.
Antes de fazer uma opção de investimento, devemos ter a noção de que qualquer escolha tem um custo de oportunidade. A utilização de crédito ou de poupanças para um determinado fim, influencia as restantes opções de investimento, de consumo ou de poupança. A aplicação de recursos nos dias de hoje irá afectar também as decisões de investimento das gerações vindouras. Com Mau Investimento podemos estar a hipotecar a capacidade de desenvolvimento da economia no futuro. Não basta portanto gastar dinheiro para ultrapassar a crise económica. O investimento não é todo igual e muito menos é igual ao consumo.
Esperemos que as famílias, os empresários e os órgãos públicos (Governo, Autarquias, Institutos Públicos) saibam optar pelas políticas de Bom Investimento, sem comprometer o futuro. Não será fácil ultrapassar esta crise económica mas será mais difícil progredir se as opções de investimento forem desajustadas, incoerentes e ineficientes. O bem-estar-social depende dessas mesmas decisões!
Num ano com três actos eleitorais, em que se perspectiva muito despesismo com marketing e inaugurações por parte do Governo e das Autarquias, façamos votos que os decisores políticos se preocupem mais com o País do que com o número de votos que poderão alcançar. Afinal de contas, todos assim o defendem! Será que cumprem?

Nuno Vaz da Silva, artigo publicado em 11/02/2009 in "Alto Alentejo"

Era uma vez Portugal!

ERA UMA VEZ... 4 trabalhadores chamados Toda-a-Gente, Alguém, Qualquer-Um e Ninguém. Havia um trabalho importante para fazer e Toda-a-Gente tinha a certeza que Alguém o faria. Qualquer-Um podia fazê-lo, mas Ninguém o fez. Alguém se zangou porque era um trabalho para Toda-a-Gente. Toda-a-Gente pensou que Qualquer-Um podia tê-lo feito, mas Ninguém constatou que Toda-a-Gente não o faria. No fim, Toda-a-Gente culpou Alguém, quando Ninguém fez o que Qualquer-Um poderia ter feito.
Foi assim que apareceu o Deixa-Andar, um 5º funcionário para evitar todos estes problemas.
Autor: Anónimo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


” Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.


(…)


Eu sou aquele que se espanta da própria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma pátria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha pátria.Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria.


(…)


Vós, ó portugueses da minha geração, que, como eu, não tendes culpa nenhuma de serdes portugueses.

Insultai o perigo.

Atirai-vos prà glória da aventura.

Desejai o record.

Dispensai as pacíficas e coxas recompensas da longevidade.

Divinizai o Orgulho.

Rezai a Luxúria.

Fazei predominar os sentimentos fortes sobre os agradáveis.

Tende a arrogância dos sãos e dos completos.

Fazei a apologia da Força e da Inteligência.

Fazei despertar o cérebro espontaneamente genial da Raça Latina.

Tentai vós mesmos o Homem Definitivo.

Abandonai os políticos de todas as opiniões: o patriotismo condicional degenera e suja; o patriotismo desinteressado glorifica e lava.

Fazei a apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores.

Ajudai a morrer os vencidos.

Gritai nas razões das vossas existências que tendes direito a uma pátria civilizada.

Aproveitai sobretudo este momento único em que a guerra da Europa vos convida a entrardes prà Civilização.

O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.


Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades!


Lisboa, Dezembro de 1917.”

Almada Negreiros in “ULTIMATUM FUTURISTA- Às gerações portuguesas do século XX “